24.11.08

Epílogo

Mudanças são boas. Seja de comportamento, nas atitudes em geral, etc. É por isso que o blog vai mudar de endereço. Calma, o Sobre Fatalismos ainda existe, mas agora lá no Wordpress. O blog ainda fará um ano em março. Mas sob esse novo comando:

www.sobrefatalismos.wordpress.com

Aguardo vocês nessa nova etapa.

19.11.08

A escrivaninha de Machado de Assis

Ali estava a polícia no local do crime. A popularidade do antiquário do velho italiano só poderia dar em assalto. E essa já é a quarta vez em dois meses.
-Dessa vez foi a escrivaninha! A escrivaninha!
-Que escrivaninha? - Perguntaram alguns.
-A do Machado! A do Machado!
Sim. Dizia o velho possuir há anos a escrivaninha de Machado de Assis. Um móvel já gasto, porém muito querido. O único que ele preservava naquele antiquário. Aquela escrivaninha tinha história.
Conta-se que o bisavô do italiano, quando ainda jovem veio ao Brasil, havia presenciado a morte do escritor, por ter sido um dos criados de sua casa. A mesma precisou ser desapropriada após o falecimento, e os criados - muito mal-criados, por sinal - com medo de nada receberem, foram furtando aos poucos algumas peças da casa. Mas o bisavô do italiano, bom homem, quis preservar o lugar preferido de seu patrão, levando a escrivaninha consigo.
-É herança de família! - Berra o velho italiano.
Era uma herança furtada, de fato. E ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, diz o ditado. Talvez essa tenha sido a filosofia atribuída ao criminoso, nunca se sabe. Mas não foi o pobre do italiano quem levou a escrivaninha para si.
A autenticidade da relíquia também reclamava sérias suspeitas. Mas o velho faz questão de comparar as fotos de Machado sentado ao lado da escrivaninha com a dita cuja que ele possuía na lojinha. Eram idênticas.
O velho italiano estava mesmo muito velho. Mais velho que suas preciosidades ou as histórias do bruxo de Cosme Velho. Velhice lembra caduquice. E a polícia, convenhamos, não é de perder tempo. No último roubo haviam levado a cadeira que fazia par à escrivaninha. O italiano chorara dias e o caso não fora solucionado. A polícia pediu que o velho aguardasse novas notícias. Nesse dia ele não abriu a loja, mas ficou lá dentro trancado, olhando da janela a vizinhança, na esperança de que alguém devolvesse seu tesouro.
Ás seis da tarde ele finalmente saiu. Foi levar o lixo para fora e, dentro da grande lixeira, encontrou pedaços de madeira que ele conhecia - e muito bem.
-Mio Dio!
Levou as mãos à cabeça em saber se ria ou se chorava: Encontrara a escrivaninha, porém, ela estava completamente em pedacinhos. Tinha sido vandalismo, com certeza.
O que se soube depois disso é que o italiano fez as malas, fechou a loja e voltou para a Itália. Deixou apenas uma vitrine aberta, para quem quisesse levar suas últimas preciosidades: O estilingue de Fernando Sabino e os óculos de Carlos Drummond de Andrade.

17.11.08

Não me arrependo

"- Mas por quê você decidiu começar a peça com a frase: 'Eu não me queixo'?
- Porque talvez esse seja o início de um livro de memórias que jamais escreverei."
::Marília Gabriela, em entrevista ao Programa do .

Eu não me arrependo. Possivelmente esta seria a frase inicial de um livro de memórias que eu também jamais escreverei. Não me arrependo das escolhas mal feitas (aos olhos alheios) porque todas me pareceram sensatas, mesmo que hoje eu pense que deveria ter feito aquilo de uma outra forma. Não me arrependo de ter demonstrado admiração em vão. Nem de ter odiado aqueles que hoje são consideravelmente queridos. Não me arrependo dos sentimentos não-declarados às pessoas que amo, ou da falta deles para os que sempre estão presentes. Não me arrependo de não ter chorado no enterro daquela senhora que a vida inteira me criou, pois depois muitas lágrimas foram derramadas quando estivemos sozinhas. Eu aqui e ela há sete palmos. Não me arrependo de ter passado as férias lendo todos (eu disse t-o-d-o-s) os livros de Machado de Assis e Fernando Sabino. Não me arrependo dos absurdos que disse ou dos que deixei de mencionar. Nem dos elogios travados ou exagerados. Não me arrependo da insensatez, da falta de sensibilidade ou do excesso de ambas. Não me arrependo das surras que levei, muito merecidas por sinal. Não me arrependo dos "nãos" que dissera outrora, nem dos poucos "sims" que nunca sairam de minha boca. Não me arrependo dos fracos que já fiz chorar ou dos fortes que me trataram do mesmo modo. Não me arrependo do orgulho, da mediocridade de minhas ações, das declarações não feitas, dos sonhos não realizados e de meu comportamento. Não me arrependo do passado imperfeito. Do ontem ou do amanhã. Das decisões, das contradições. Dos erros, pequenos ou grandes. Dos acertos mínimos. Do maior dos erros: O de nunca ter dito "eu te amo" para quem merecia. Não consigo. Achava que essa coisa do "não me arrependo de nada que fiz, apenas do que não fiz" era real. Mas à mim isso se aplica com total inexistência. Não consigo me arrepender do que me dá identidade. Nem creio que me arrependerei no Juízo Final. Eu vou mesmo para o inferno.

"Eu não me arrependo de você
'Cê não me devia mal dizer assim
Vi você crescer
Fiz você crescer
Vi 'cê me fazer crescer também
Pr'além de mim..."
::Não me Arrependo - Caetano Veloso

14.11.08

Das coisas que eu não movo um dedo sequer para me empenhar

1.: Engordar. Sair desse estado quase desnutrida ("Olha, parece que ela tem anorexia!", "Ha-ha-ha, Olívia Palito!") e parar de ser comparada a Nicole Kidman;
2.: Desligar a TV no botão (se eu não encontrar o controle remoto, deixo ela ligada);
3.: Estudar Física ( e eu passo de ano, sei lá como);
4.: Ouvir NX Zero e Jonas Brothes (ou qualquer banda emo/pop modinha poser da MTV do momento);
5.: Tomar chá, sopa ou ser obrigada a jogar Tetris e/ou Bloquinhos Mágicos quando estou doente. Minha mãe precisa aprender que eu já não tenho 12 anos e que aquele Guia de Saúde do Correio da Bahia precisa ser atualizado.

13.11.08

Quase (um ensaio sobre a) cegueira

"Houve um tempo em que, se tivesse de optar entre duas cegueiras, escolheria ser cego ao esplendor do mar, às montanhas, ao pôr-do-sol do Rio de Janeiro, para ter olhos de lê o que há de belo, em letras negras sobre fundo branco. (...) Mas agora, ainda que encontrasse os óculos de leitura, eu não me animaria a abrir meu próprio livro, de cujo conteúdo mal me lembrava. (...) Se antes dos trinta eu já tinha a vista cansada, não surpreenderia que chegasse aos quarenta com a mente saturada da palavra escrita. Era possível que para elas me restasse apenas um bom ouvido, e atrás das palavras mais sonoras entrei pela noite recorrendo aos canais de televisão. Encontraria quem sabe um programa de assuntos literários, com sorte uma mesa-redonda onde falassem do meu livro, alguma atriz bonita a declamar meus fraseados. (...) Acho que eu já cochilava, penei para abrir os olhos. E quando abri os olhos, tinha ficado cego."
::Do livro Budapeste, de Chico Buarque.

Eu queria um layout com a cara do verão. Consegui. A música então é perfeita. A Cor Amarela, novíssima de Caetano Veloso.

10.11.08

Sensatez demais

(Para Alexandre Lúcio Fernandes - o ALF.)

Ainda há, meu caro amigo, um fio de voz da razão que ecoa em meu pensamento. Ela pede que eu não desista. Ouço o seu conselho por falta de coragem. Pois o coração implora para que eu abra a janela do sétimo andar e não olhe para baixo. Ele diz que eu tenho asas, naturalmente está mentindo. Ele diz que essa é a melhor forma de acabar com a dor, isso sim é verdade. A possibilidade não é de todo descartada.
Eu que necessito de palavras sou ferida com o silêncio. Ou com o excesso de ofensas. Grandes verbos, sílabas infinitas, adjetivos impiedosos e sem justificativa. Se há um motivo, ele não me é dado. Não sei se há argumentos plausíveis nessas acusações. Existe fundamento para julgar tanto uma pessoa?
As pessoas ao meu redor esperam uma reação que não convém à mim. Na maioria das vezes, evito chorar para melhor pensar e tornar coerentes as minhas decisões. Mas elas querem o contrário. Elas querem que eu seja o produto que inventaram para mim. E se enganam, se enganam facilmente. E me excluem, porque sabem que eu jamais irei caber no sonho delas.
O silêncio ainda é uma fina espada que atravessa o meu peito. Os olhares repreensivos me fazem sentir culpa. Ainda não acredito nesse ponto de fraqueza ao qual cheguei. Eu que costumava ser tão sensata! Talvez tenha sido sensatez demais.
Eu cometo erros porque sou humana. Eu não sou símbolo de perfeição e nem tenho um coração de pedra. Sim, talvez eu esteja dramatizando demais. Mas o drama aqui relatado não é pior que a vida real. Não, eu não quero me contaminar com toda essa superficialidade. Mas cada vez que eu tento ser uma pessoa melhor, alguém sempre encontra um defeito ou um erro do passado, uma atitude já esquecida e, no entanto, desenterrada.
Porém a razão ainda tem um modo de defesa que também me é um poderoso ataque: As letras. O preto no branco desse papel ainda me impede de cair dessa corda-bamba que é a vida e não acordar mais. Sou péssima equilibrista. É muito mais sedutor o convite do coração, mas eu não seguirei sua ordem. Minha teimosia pendendo para a razão deve prevalecer.

"A insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor
O seu amor
Um amor tão delicado
Ah, porque você foi fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração que nunca amou
Não merece ser amado."

::Insensatez - Tom Jobim e Vinicius de Moraes.